Plantar arroz em Rio do Campo, a 600m de altitude, sempre foi um desafio para Antônio Carlos Contezini, já que a região do Alto Vale do Itajaí costuma ter extremos de temperatura tanto no inverno como no verão, afetando a produtividade. Inconformado com a situação, o produtor levou a demanda por um novo cultivar para os pesquisadores da Epagri em Itajaí e abriu a propriedade para testar variedades adaptadas à região. Após 15 anos, o SCSBRS126 Dueto foi lançado, e na segunda safra já alcançou 25,3% da área plantada no Estado.

Isso porque o cultivar, que se chama Dueto por causa da parceria com a Embrapa, tem uma dupla aptidão: não só tolera baixas e altas temperaturas na fase reprodutiva – o que atende demandas por variedades mais resilientes em virtude das mudanças climáticas – como apresenta uma boa produtividade. “A nossa média girava em torno de 135 sacas por hectare. Com a 126 Dueto, na última safra colhi 186 sacas”, comemora o produtor.
Essa versatilidade fez com que o SCSBRS126 Dueto fosse adotado, também, em outras regiões. O agrônomo e produtor Mattheus Beck não conseguia bons resultados em sua lavoura em Garuva, no Litoral Norte, por causa do solo pouco fértil, calor e chuva excessivos. Sempre atento às novidades tecnológicas desenvolvidas pela Epagri, ele testou a variedade em 2024, numa área de seis hectares que costumava produzir 120 sacas/hectare. E qual não foi o seu espanto quando conseguiu colher 204 sacas.
No ano seguinte, ele plantou 18 hectares e no terceiro ano, ampliou para 22 hectares. Mas, desta vez, ele optou por um mix de sementes. “Como os pesquisadores recomendam, não dá pra botar todos os ovos na mesma cesta porque a variedade pode ser boa em um certo cenário e não tão boa em outro”, afirmou. Dados da Epagri/Cepa apontam que na safra 2025/26 o Dueto chegou a ocupar 48% da área plantada.
Sua cautela faz todo sentido porque o cultivar SCSBRS126 Dueto é tolerante à extremos de temperatura na fase reprodutiva, mas não durante todo o ciclo, por isso não é recomendável plantar durante o inverno, já que a planta precisa de calor para se desenvolver. Outras características que conquistaram os agricultores catarinenses são a qualidade do grão, apto para o processo de parboilização e, principalmente, o baixo índice de esterilidade sob estresse de temperatura, uma das maiores causas de baixa produtividade.

“Quando ocorrem temperaturas muito baixas durante um período prolongado na época vegetativa, as espigas não enchem de grãos, é o que chamamos plantas estéreis. Só na hora de colher os produtores percebem que a colheitadeira está com poucos grãos, as cascas estão vazias”, explica o engenheiro-agrônomo e pesquisador do Projeto Arroz da Estação Experimental da Epagri em Itajaí (EEI), Rubens Marschalek.
Como o cultivar foi desenvolvido
Rubens foi o coordenador da pesquisa que começou em 2009 com o projeto “Desenvolvimento de cultivares de arroz para sistema irrigado visando a obtenção de tolerância a estresses bióticos e abióticos”, financiado pelo CNPq. O projeto seguinte, “Avanços tecnológicos em arroz irrigado para a Região do Alto Vale do Itajaí” (2010-2012), foi financiado pela Fapesc e teve o apoio do produtor Antônio Carlos Contezini na condução de experimentos e unidades de observação na região.
O SCSBRS126 Dueto começou a tomar forma a partir do cruzamento entre o cultivar IRGA 424 e a linhagem BRA040081 da Embrapa. A hibridação foi realizada em 2008 pela unidade Arroz e Feijão; e a multiplicação na Estação Experimental de Palmital, em Goianira (GO). O material veio para a Estação Experimental de Itajaí (EEI), em 2009, onde foi testado e avaliado em um ensaio de observação, resultando em cinco famílias de sementes.
O próximo passo foi testar as famílias de sementes selecionadas no Ensaio de Rendimento, realizado na safra 2011/12 nos municípios de Alegrete, Capão do Leão e Santa Vitória do Palmar (RS) e em Itajaí (SC). A família de sementes mais promissora foi avaliada em ensaios avançados entre 2012 e 2015, e recebeu o nome de SC 806, que posteriormente foi batizada de SCSBRS126 Dueto.

Na etapa seguinte, foram realizados experimentos a 600m de altitude em Rio do Campo, nas safras 2014/15 e 2015/16; e a 500m de altitude em Mirim Doce. O bom desempenho da linhagem levou a outros ensaios entre as safras 2017/18 e 2021/22. Paralelamente a este processo, em 2013 foram conduzidos vários experimentos de monitoramento de temperatura, luz e umidade, em parceria com o Centro Agroveterinário (CAV) da UDESC. As pesquisas confirmaram a resiliência da linhagem a temperaturas baixas (15⁰C) e altas (38⁰C), mas não nas fases de germinação, estabelecimento e vegetativa.
“Por esta razão, a variedade é indicada, principalmente, para regiões de altitude superior a 400m, sujeitas a quedas de temperatura na fase reprodutiva do arroz. Pelo fato da planta não crescer muito nestas regiões, ela não corre o risco de tombar, já que o caule é fino”, explica Rubens. Ele também alerta para a densidade correta da lavoura, de acordo com a região. “Em altitude é possível plantar 150 kg de sementes por hectare; já no litoral, a recomendação é 100 kg por hectare, devido ao calor”, explica.
Retorno para a sociedade
Quem multiplica e comercializa as sementes é a Associação de Produtores de Semente (Acapsa). Por causa da grande procura, a Acapsa avisou que o estoque para a safra 2026/27 do cultivar SCSBRS126 Dueto já tinha chegado ao fim em maio. Pudera, em 2024, a área de adoção era de 6.480 hectares e deu um salto para 30.486 hectares em 2025, quando a taxa de produtividade média no Estado chegou a 9.169 kg/hectare.
Segundo o Relatório de avaliação dos impactos das tecnologias geradas pela Epagri (Balanço Social), o benefício econômico gerado pelo cultivar, em 2025, foi de R$140,6 milhões em Santa Catarina. Somados a outros Estados, este valor chega a R$161,8 milhões. Atualmente, cerca de 5 mil produtores cultivam arroz no Estado em 143,4 mil hectares.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc