Tutoramento vertical do pepineiro elevou a produtividade e a qualidade de vida do produtor
A adoção do tutoramento vertical do pepino no Vale do Itajaí deu tão certo que o plantio rasteiro se tornou quase uma relíquia do passado, pois produzir no chão, rente ao solo, deixa o fruto mais suscetível às doenças provocadas pelo excesso de umidade. Isso sem falar na melhoria da qualidade de vida de quem produz, já que a posição vertical facilita a colheita dos frutos e promove uma maior rentabilidade, pois as plantas recebem mais radiação solar e ventilação, crescendo mais saudáveis, de forma mais vigorosa e com elevada produtividade, atendendo aos rígidos padrões da indústria.

“Na área de hortaliças, não existe produto que dê mais retorno do que o pepino para conserva. É a única hortaliça que a gente consegue negociar o preço antes de plantar porque a demanda da indústria é muito grande”, afirma Tarcísio Dalcegio Jr., técnico agrícola que produz pepino em Botuverá. Ele conta que os pais passavam trabalho quando o plantio era feito rente ao solo, por isso, quando decidiu retomar a atividade, pesquisou técnicas modernas de produção.
“A Conservas Petermann, de Brusque, estava precisando de matéria-prima e sugeriu para que eu adotasse o sistema vertical. Pode dar um pouco de trabalho para conduzir a planta, mas quando atinge o tamanho, é só vantagens”, acredita. Em 2023, o produtor chegou a colher 900kg de pepino num único dia. Naquele ano, a safra alcançou 20,5 toneladas. Hoje, o produtor fornece a outras três indústrias: Riscarolli (Brusque), Dirschnabel (Guabiruba) e Estrela (Botuverá).
Entre os benefícios trazidos pela tecnologia, lançada em 2002 pela Epagri, estão a facilidade no manejo e a produção de frutos mais saudáveis, pois exigem menor aplicação de fungicidas; além do aumento da produtividade, já que a técnica possibilita um maior número de plantas por área. Hoje, cerca de dois mil agricultores produzem pepino para conserva no Estado. Graças à aplicação da tecnologia, a produtividade salta de 15 toneladas por hectare para 65 t/ha.

Técnica serve para plantio convencional e orgânico
O engenheiro-agrônomo e pesquisador Rafael Cantú, que trabalhou no Projeto Hortaliças até 2024, conta que a tecnologia foi uma adaptação criada pelo pesquisador aposentado da Estação Experimental da Epagri em Itajaí (EEI), Euclides Schallenberger, das técnicas já empregadas em outros cultivos conduzidos verticalmente, como o tomateiro. A tecnologia trouxe tantos benefícios que passou a ser largamente utilizada, tanto no cultivo convencional quanto no orgânico, à céu aberto ou abrigado.
“No cultivo aberto, é possível transitar com as máquinas entre as fileiras, facilitando o manejo; e no cultivo abrigado, além de proteger os frutos das intempéries do clima, também os protege de pragas por causa da tela anti insetos”, enumera.
Cantú conta que a utilização de cultivares de pepino partenocárpico foi outro fator que colaborou para o ganho de produtividade ao longo dos anos. “A utilização de cultivares de pepinos híbridos, que só produzem flores femininas, fez com que a planta tivesse mais frutos por planta, aumentando a produtividade, por isso sempre recomendamos a utilização de sementes e mudas certificadas”, reitera.
De fornecedora para a indústria para a feira livre
Maris Passold Gruenke, de Blumenau, é da geração que cresceu ajudando os pais na roça, por isso sabe muito bem como era plantar pepino rente ao solo. “Nossa qualidade de vida melhorou 100% com o cultivo vertical porque a mão de obra, que é diária no caso do pepino para conserva, é muito difícil. E o produto também ficou melhor, não tem mais contato com terra, a desfolha ficou facilitada, não tem comparação”, afirmou.

Maris conta que passou 20 anos produzindo para a indústria, mas em 2017, mudou o foco da produção, que hoje é comercializada na feira livre de Blumenau. E a demanda continua constante, impulsionada pela tradição dos descendentes de alemães de conservar as hortaliças na forma de picles.
“Quando um vendaval destruiu algumas estufas, nós tivemos que repensar o plantio de pepino. Em vez de fornecer para a indústria, que exige uma produção muito grande, e requer mais mão de obra, passamos a produzir hortaliças da estação para o consumidor final. Isso facilitou nossa vida porque o cliente não se importa se o pepino tem mancha ou se cresceu demais”, explica.
Maris também não abre mão do cultivo protegido, que protege do frio, geada, chuva e onde consegue produzir com mais eficiência hortaliças de qualidade e mais saudáveis, já que requer menos fungicida. Ela também dá preferência ao controle biológico. “Eles são mais caros e a eficiência não é 100%, mas eu prefiro reduzir ao mínimo o uso de agrotóxicos, é a nossa saúde que está em risco”, acredita.
Para o ano que vem, a produtora pretende ingressar no curso de empreendedorismo feminino Flor-E-Ser para colocar em prática um velho sonho: ter a própria agroindústria de hortaliças em conserva. “A Epagri sempre caminhou ao nosso lado. Os técnicos são de casa, eles nos orientam em relação às oportunidades que surgem. Sempre que é possível, fazemos questão de participar”.