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17/03/2026 | Boletim Agropecuário

Mercado da soja mostra resiliência em Santa Catarina, aponta Boletim Agropecuário da Epagri/Cepa

Alta em Chicago e bom desempenho das lavouras catarinenses equilibram o cenário da safra 2025/26 Por Cristiele Deckert

O mercado da soja apresenta sinais de resiliência e pontos positivos para os produtores catarinenses, apesar da pressão típica do período de colheita no Brasil. Em fevereiro, o preço médio ao produtor em Santa Catarina foi de R$117,09 por saca, uma retração de 3,7% em relação ao mês anterior, movimento esperado diante da entrada de uma safra volumosa no mercado nacional.

Mercado da soja em SC apresenta preços estáveis e perspectivas positivas para produtores (Foto: Tiago Ghizoni/Epagri)

Os dados constam no Boletim Agropecuário de março, publicação mensal do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola da Epagri/Cepa. O documento traz informações atualizadas sobre produção, preços, clima e mercado, funcionando como termômetro do agronegócio catarinense.

O cenário interno, no entanto, contrasta com o ambiente internacional. As cotações na Bolsa de Chicago avançaram em fevereiro e no início de março, impulsionadas principalmente pela valorização do petróleo e do óleo de soja, reflexo das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Esse movimento tem sustentado os preços globais da oleaginosa acima de US$ 12 por bushel, nos níveis mais altos desde maio de 2024.

O analista da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, avalia que a safra record de soja no Brasil, em plena fase de colheita, amplia a oferta do grão no mercado interno e exerce pressão negativa sobre os preços ao produtor. “Neste cenário externo, porém o movimento é distinto, pois as tensões no Oriente Médio elevaram o preço do petróleo o que tornou o óleo de soja uma alternativa para a composição de biocombustíveis”, afirma.

Em Santa Catarina, a variação dos preços segue moderada e estável. Nos últimos 30 dias, a queda foi de 3,0%, enquanto, no acumulado de 12 meses, a retração ficou em 3,4%, indicando um ajuste gradual e sem movimentos bruscos no mercado estadual, conforme análise da Epagri/Cepa.

Outro ponto positivo vem do comportamento dos fundos de investimento, que voltaram a assumir posições compradas em Chicago, reforçando o viés de sustentação das cotações internacionais. Além disso, o mercado acompanha atentamente os relatórios do USDA, que, apesar de indicarem estoques globais confortáveis, mantêm a atenção sobre fatores geopolíticos e energéticos que podem seguir dando suporte aos preços.

Safra catarinense 2025/26

Mesmo com redução de área e ajustes na produtividade em relação ao recorde anterior, o quadro geral das lavouras segue positivo em Santa Catarina. Até o início de março, 83% das áreas estavam em boas condições, e a colheita avançava dentro do esperado. Episódios localizados de estiagem não comprometem, até o momento, o desempenho global da produção no Estado.

O conjunto desses fatores indica que, embora o mercado atravesse um período de acomodação, a soja segue com fundamentos sólidos. A combinação de demanda internacional, valorização dos derivados e boa condução das lavouras em Santa Catarina sustenta uma perspectiva mais equilibrada e construtiva para os próximos meses.

O analista da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, explica que, na atual safra de soja, houve um pequeno recuo na área plantada em Santa Catarina. Apesar disso, ao considerar o desempenho conjunto da primeira e da segunda safra, a expectativa é de que a produção estadual ainda alcance cerca de 3 milhões de toneladas, volume suficiente para garantir a autossuficiência no abastecimento interno.

“Santa Catarina é autossuficiente em soja. Mesmo que não fosse, não haveria risco de desabastecimento, já que o Estado está entre o Paraná e o Rio Grande do Sul, dois grandes produtores capazes de suprir eventuais demandas do mercado catarinense. A situação é diferente no caso do milho. O Estado não é suficiente na produção e precisa buscar cerca de 6 milhões de toneladas fora do território catarinense, oriundas principalmente do Centro-Oeste ou do Paraguai”, destaca Elias.

No vídeo, o analista da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, analisa o cenário da soja catarinense e os principais movimentos econômicos do mercado, com base nos dados do Observatório Agro Catarinense.

Boletim Agropecuário de Santa Catarina 

O Boletim Agropecuário é uma publicação mensal produzida pelo Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola da Epagri (Cepa). A edição reúne informações atualizadas sobre produção, preços, clima e mercado, funcionando como um termômetro do desempenho do agronegócio catarinense. O conteúdo completo deste mês está disponível neste link. Confira os destaques das principais culturas do agro de Santa Catarina presentes no Boletim Agropecuário de março de 2026:

Exportações e ajuste de oferta sustentam cenário mais equilibrado para o arroz

Os preços do arroz apresentaram leve recuperação no início de março no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, sustentados pela baixa liquidez e pela retenção de vendas por parte dos produtores, o que levou indústrias a elevar pontualmente suas ofertas; ainda assim, o avanço da colheita, os estoques elevados e o mercado externo apenas moderadamente favorável limitam novas altas e mantêm margens negativas no campo. As exportações surgem como alternativa para aliviar a oferta interna e mostram sinais de melhora em 2026, com alta de 59% no valor embarcado entre janeiro e fevereiro, segundo o MDIC, tendência que pode refletir nos preços internos. Para a safra 2025/26, a Conab projeta queda de 14,4% na produção nacional, enquanto em Santa Catarina a área recua levemente e a produção deve alcançar cerca de 1,22 milhão de toneladas, em um ciclo considerado normal, com lavouras majoritariamente em boas condições.

Feijão mantém ritmo de alta e mercado segue aquecido

O mercado de feijão em Santa Catarina começou 2026 com valorização do produto, consolidando uma tendência de alta impulsionada pelo ritmo aquecido de vendas: o feijão-carioca acumulou ganho de mais de 40% no mês, com novos avanços na primeira semana de março, enquanto o feijão-preto também registrou elevação consistente no período. No campo, a colheita da primeira safra alcançou 63% da área até o fim de fevereiro, com predominância de lavouras em maturação, embora o excesso de calor e a umidade tenha reduzido o ritmo dos trabalhos. Para o ciclo 2025/26, as projeções indicam redução de 6,5% na área plantada em Santa Catarina, com queda de produtividade e recuo estimado de 7,2% na produção, totalizando cerca de 66,5 mil toneladas.

Milho entra em novo ciclo com produção consistente e cenário favorável

Os preços do milho recuaram no Sul do Brasil em fevereiro e início de março, pressionados pelo avanço da colheita da safra de verão e pelos estoques remanescentes, com retração de 4,5% em 30 dias; em sentido oposto, o Indicador ESALQ/BM&FBovespa avançou mais de 5% no mês, refletindo no mercado futuro o atraso no plantio da segunda safra e o risco de perdas na produção. Para a safra 2025/26, a área cultivada cresceu 1,95% e as lavouras apresentam bom desempenho geral, com produtividade estimada em 8.802 kg/ha, abaixo do ciclo anterior, considerado excepcional.

Trigo busca reequilíbrio e abre espaço para oportunidades na próxima safra

A comercialização do trigo da safra 2025 segue em ritmo lento diante de um mercado interno estagnado, cenário que em Santa Catarina é reforçado pela queda dos preços ao produtor, que recuaram em fevereiro, fechando mês em R$ 60,83/sc. Em relação à safra, a área plantada reduziu cerca de 15%, mesmo com ganho de produtividade de 4,5%, o resultado não compensou a redução de 11,08% na produção em relação a 2024. Com menor oferta e incertezas para 2026, o setor adota postura cautelosa, atento ao clima e ao escoamento do produto em estoque. No cenário internacional, o conflito no Oriente Médio amplia os desafios ao agronegócio brasileiro ao pressionar custos de fertilizantes e logística, em um contexto de petróleo mais caro e câmbio volátil, que segue limitando as margens do setor.

Exportações impulsionam a bananicultura e reforçam liderança 

Os preços da banana recuaram em Santa Catarina no primeiro bimestre de 2026, puxados pela maior oferta, com queda mais acentuada da banana-caturra, enquanto a banana-prata apresentou recuo moderado e tende à estabilidade em março. Na média, as cotações caíram 7,3% entre janeiro e fevereiro, e a expectativa é de manutenção da pressão sobre os preços com o avanço da produção e maior concorrência entre as frutas. O desempenho nas exportações é o destaque: com o volume exportado pelo estado crescendo 16,3% no primeiro bimestre de 2026 em relação ao do ano anterior, o que consolida Santa Catarina como responsável por 47% das exportações brasileiras da fruta no período. Para a safra atual, a produção estadual deve ficar praticamente estável, com leve redução, concentrada majoritariamente no Norte Catarinense, enquanto o Sul Catarinense mantém participação relevante, sobretudo na banana-prata.

Produtores de alho adotam estratégia de retenção em cenário desafiador

Grande parte da safra de alho permanece armazenada em Santa Catarina, com apenas cerca de 20% do volume produzido já comercializado, em um cenário de preços pouco atrativos ao produtor e ao atacado. No mercado estadual, as cotações recuaram no início do ano, refletindo a elevada oferta interna e o aumento das importações, especialmente da Argentina, responsável por 96% das 17,74 mil toneladas importadas em fevereiro, volume 21% superior ao de janeiro; o produto externo tem ingressado no país a preços abaixo do custo de produção nacional, ampliando a pressão sobre o mercado e limitando o ritmo de vendas.

Cebola recua em fevereiro, mas preços reagem no início de março

O preço médio da cebola ao produtor em Santa Catarina caiu 8% em fevereiro, fechando o mês em R$ 0,71/kg, movimento acompanhado pelo atacado, que também registrou retração de 8%. Com cerca de 50% da safra já comercializada, o mercado mostrou reação na primeira semana de março, impulsionada pelo fim da oferta do Rio Grande do Sul e do Paraná, além das chuvas no Nordeste, que dificultaram o escoamento do produto e concentraram a oferta nacional no estado catarinense. As importações somaram cerca de 417 toneladas em fevereiro, volume acima de janeiro, mas significativamente inferior ao registrado no mesmo mês de 2025.

Boi gordo sobe em março com força das exportações e menor oferta

O preço médio do boi gordo em Santa Catarina avançou 2,2% nas duas primeiras semanas de março em relação a fevereiro, acompanhando a tendência dos principais estados produtores, e acumula alta de 10,8% na comparação com março de 2025, em valores corrigidos pelo IGP-DI. A valorização é sustentada pelo forte desempenho das exportações brasileiras de carne bovina, que cresceram 23% no primeiro bimestre do ano e atingiram novo recorde para o período, além da mudança no ciclo pecuário, que reduz gradualmente a oferta de animais para abate, movimento refletido na queda de 5,1% nos abates registrados no estado em fevereiro frente a janeiro.

Avicultura catarinense registra recorde de receitas e amplia presença global

As exportações de carne de frango de Santa Catarina somaram 104,6 mil toneladas em fevereiro, alta de 1,5% frente a janeiro, com receitas de US$ 215,4 milhões. No acumulado do primeiro bimestre, os embarques alcançaram 207,8 mil toneladas e US$ 441,6 milhões, os melhores resultados da série histórica em valor e o segundo maior em volume, para o período. O estado respondeu por 24,7% da receita e 22,4% do volume exportado pelo Brasil nos dois primeiros meses do ano. Apesar do desempenho positivo, o setor avícola opera em alerta diante do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, já que o Oriente Médio responde por mais de um quarto das exportações catarinenses de carne de frango, e a instabilidade tem provocado desvios de rotas, atrasos logísticos, aumento nos seguros e custos adicionais, pressionando as margens e elevando os riscos para toda a cadeia produtiva.

Santa Catarina consolida liderança nas exportações de carne suína

As exportações de carne suína de Santa Catarina somaram 56,2 mil toneladas em fevereiro, leve alta frente a janeiro, com receitas de US$ 138,6 milhões, enquanto no acumulado do primeiro bimestre os embarques catarinenses alcançaram 112,1 mil toneladas, com receitas de US$ 276,9 milhões. O estado respondeu por 48,4% do volume e 50,5% das receitas nacionais no período. Entre os principais destinos da carne suína catarinense destacam-se o Japão, com quase 30% das receitas e forte expansão frente a 2025, além de Filipinas e China, reforçando a liderança de Santa Catarina no comércio externo do setor. 

Leite inicia 2026 em recuperação de preços em Santa Catarina

Os preços do leite começaram 2026 em trajetória de recuperação em Santa Catarina, com o valor de referência do Conseleite para o leite padrão subindo de R$ 2,06 para R$ 2,14/litro entre fevereiro e março, movimento acompanhado pelo preço médio ao produtor e pelos derivados no atacado, que registraram altas no leite UHT e nos queijos, sinalizando recomposição gradual das margens na cadeia. No comércio exterior, a balança catarinense de lácteos seguiu deficitária em fevereiro, mas com saldo negativo 47% menor que no mesmo mês de 2025, reflexo principalmente da queda de 30% nas importações, o que contribuiu para reduzir a pressão sobre o mercado interno.

Assista abaixo a apresentação completa do Boletim Agropecuário de Santa Catarina edição de março de 2026. 

Por: 

Cristiele Deckert

Jornalista | Bolsista Fapesc Epagri/Cepa

📧 cristieledeckert@epagri.sc.gov.br

 

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